A pandemia não é sobre mim, você, nem sobre ninguém. Então
nem adianta pensar no que poderia ter sido, no que ainda não foi, ou no que não
volta mais. Ainda assim, tenho direito ao luto. Porém me reconheço como uma mera
partícula tentando se encontrar neste lugar que outrora fora tão vasto, e agora
se resume aos cômodos da minha casa.
Sentada aqui, à meia luz, alimentada, banhada e vestida, lembro
daquela que sempre perseguiu o duplo. Aquela que segue se enxergando deslocada
do todo, meio torta, esquisita. Aquela que implorou afeto nos lugares errados.
Aquela que se desesperou com fantasias trágicas. Aquela que escondeu a voz, as
letras e outros segredos. Aquela das neuroses, das paranoias, das ajudas. Aquela
que perdeu o medo de chorar e sentir. Aquela que seguiu, apesar de tudo.