Friday, October 2, 2020

Te avisaram, não é? Mas você foi, mesmo assim. Apostou na leveza e no riso. Naquela simplicidade habitava o possível. E andou.

Não foi sua culpa, nunca foi. Você chegou batendo devagar as suas asas e elas cresceram. Quis voar mais, e mais alto, distante, o longe era destino.

De uma asa brotou a mão e o convite. Negados.

Tuesday, September 22, 2020

Recolhendo

Meus olhares e toques

Minhas risadas e choros

Meu amor e saudade

O meu corpo e centro

Tuesday, September 8, 2020

Trajetos

 A mochila e a coberta

O táxi

O ônibus e a estrada

A serra,

O verde, as montanhas

As curvas


A rodoviária 

Os sorrisos e as esperas

Outro ônibus

O livro, as músicas, as mensagens

O caminho


O anoitecer, as luzes

Outro estado, o longe

A esquerda

A cidade


A rodoviária

O carro

O abraço

O você

Não mais.

Saudade

 Acordei hoje lembrando de como eu apertava a bochecha carnuda, de como eu a abraçava. De como eu gostava de fotografá-la.

Ela gostava de mastigar os dedos do meu pé, e eu deixava, tão feliz. Eu gargalhava.

Ele se deitava perto de mim, me deixava fazer tantos carinhos.

Uma vez eu levei um presente pra ela. Ela amou e carinhosamente o destruiu.

Ela roubava meus sapatos e chinelo. Saía correndo em disparada, e eu tentava alcançá-la.

Ela é um amor. Ela tem meu amor, sem a presença. Ela é uma lembrança.

Wednesday, August 26, 2020

Família

Família eu penso dor, e me vejo melancólica naquela foto em preto e branco, tirada pelo meu pai na casa da tia. Me vejo triste no concurso da caipira mais bonita. Me vejo alegre com meu noivo na festa de São João. Me vejo simples, vestida com a fantasia da amiga e minha gata no colo. 

Me vejo com medo. Me vejo em traumas, com as pernas roxas, depois de apanhar. Me vejo carente, me vejo frágil. Me vejo com a mãe, deslocada e imprópria. Eu vejo a mãe, bêbada e infeliz. Eu vejo o pai que me leva a passeios, mas trabalha muito. 

Eu me vejo desenhando na frente da tv. Eu me vejo indo a lugares em que não queria. Me vejo espantada com a dança da coleguinha. Me vejo sem voz, não lembro do que eu falava, do que eu queria.  Eu me vejo fora, repreendida. 

Sunday, August 23, 2020

23/08/2020


Eu me deito e o dia vem em fatos. Eu me lembro do que é e do que passa, escorrendo sem aviso pelas horas. Eu me entrego aos sonhos e às vezes lembro deles. Às vezes eles também me espantam, e já me pediram para não sonhar assim, pois é esquisito. Bem vindo ao deslocamento, eu não nasci encaixada, eu vim da água e assim eu me bebo e transbordo.

Friday, August 14, 2020

Eclipse


Amou de algum jeito
E desamou no escuro

Os gemidos de dia
Regaram a angústia noturna

Nem mais o vinho
Nem os beijos
Nem nada

Pariu uma fuga estranha
E extirpou o casal.





Friday, August 7, 2020

Irrevogável

Ainda que não beijasse mais os seus lábios, exigi seu rosto descoberto na despedida. Desnecessária mais uma barreira - a maior delas, o seu distanciamento, já se fizera presente.

Sunday, August 2, 2020

30/07/2020

Eu abri tanto que rasguei.
É desse jeito que me abraça o sentir. Sem metades.

Friday, July 24, 2020

24/07/2020


Esqueceu do vinho e me retornou os sapatos. Agora eu espalho letras sobre a perda. 

Havia amor, havia distância. Havia, nem sei.

Tuesday, July 14, 2020

14/07/2020


A pandemia não é sobre mim, você, nem sobre ninguém. Então nem adianta pensar no que poderia ter sido, no que ainda não foi, ou no que não volta mais. Ainda assim, tenho direito ao luto. Porém me reconheço como uma mera partícula tentando se encontrar neste lugar que outrora fora tão vasto, e agora se resume aos cômodos da minha casa.

Sentada aqui, à meia luz, alimentada, banhada e vestida, lembro daquela que sempre perseguiu o duplo. Aquela que segue se enxergando deslocada do todo, meio torta, esquisita. Aquela que implorou afeto nos lugares errados. Aquela que se desesperou com fantasias trágicas. Aquela que escondeu a voz, as letras e outros segredos. Aquela das neuroses, das paranoias, das ajudas. Aquela que perdeu o medo de chorar e sentir. Aquela que seguiu, apesar de tudo.

Friday, June 26, 2020

26/06/2020


Essas árvores que me salvam um pouquinho todos os dias não são quaisquer árvores: são meu privilégio. Olhar para elas todos os dias, de manhã e de tarde, saber que ali habitam pássaros em seus ninhos, macacos e insetos, escutar o vento remexendo suas folhas, notar as flores amarelas daquela mais longínqua... Um pedaço de natureza perto de mim, natureza essa que me faz falta, onde me imagino liquefazendo.

Monday, June 15, 2020

13/06/2020

Mais um crepúsculo, eu e meu corpo. Movimento, música, fluxo, resisto hoje, amanhã quem sabe?

13/06/2020

Hoje me deito transparente e acolho uns tédios. Já houve tentativas de fuga, até que desisto. Não adianta trapacear com o hoje. Até meus gatos sabem disso.

13/06/2020

A preguiça dos sábados ensolarados, da praia fictícia pintada na mente e desenhada no chão da sala. Os gatos se encostam, suaves, até que o sono leve os convida ao retiro. O livro-presente, as páginas lidas, impressões aprendidas - saudade.

Monday, May 25, 2020

24/05/2020

Chega a ser imprevisível que o livro despenque ao chão, sem a desmarcação da última página lida.

22/05/2020

Me vem uma escrita descolada de enredo. De que valem o início, o meio e o fim, se o presente se impõe cruel? Eu sou um pedaço de aranha em corpo de gato - os humanos são a minoria esmagadora. 

E se há bagunça, é porque ainda vivo e transito neste espaço diminuto.

Thursday, May 21, 2020

21/05/2020


Da janela, há três meses, o horizonte angulado e mais algumas árvores que adornam de curvas os formatos criados por gentes. É da mesma janela que avisto, dia após dia, algumas cores do entardecer. Com sorte, sempre anoitece, e os pássaros já se acolheram em lugares que minha vista não alcança. À noite, as luzes quadradas não mentem ao entregar esperança. Ruídos se cruzam de seres que seguirão afastados, por mais que tudo isso acabe.

Wednesday, May 20, 2020

Antes do Sono

Eu finjo que as cortinas fechadas espantam a pandemia. E vou aos sonhos, mascarada.

Tuesday, May 19, 2020

19/05/2020


Ando trocando as peles pelo sol, pelos raios que me alcançam nesse outono imerso em mim mesma. As imagens me enjoam, e a distância caçoa das minhas dores.

Monday, May 18, 2020

18/05/2020



Hoje acordei obscura, preguiçosa, latente. Os sonhos me vieram em telas. Além das máscaras de proteção, o susto dos esbarros improváveis, a iminente catástrofe. Tudo é meio estranho, e estranhamente uma parte minha deu boas vindas a esse novo tempo, e com ele a adaptação. Tem em mim um desejo que ainda me impele pro sabor do que a vida oferece.

Thursday, May 14, 2020

14/05/2020


Persistem os objetos inanimados em três dimensões, persistem os bichos, persiste o espaço entre todos eles. Persiste um tempo que segue adiante, enquanto fincados estão meus pés no azulejo frio. Persiste o calor do sol. Persiste você, o longe e o aqui.

13/05/2020


A escrita desgarrada de tudo - do sentido, da forma, do espaço. Sem título, anormal.
Do espaço vazio que a mente projeta, ausência de ideias. Procuro no peito o que sinto, e retorno ao vazio. 
Agora, nada vem. (Calmaria).

Tuesday, May 12, 2020

12/05/2020

Não me defendo, pois prefiro sentir e me expor a tudo. Ainda que rasgue.

Thursday, May 7, 2020

Os dias contados


A sensação, o aroma, o calor do seu abraço.
Os sessenta dias são hoje. Tudo que me resta, tudo que ainda é e ainda espero.
Proteção, afago, sorriso imenso. Todo seu, para mim.

Wednesday, May 6, 2020

Dia algum


Alguns passos, em pé, de um corpo que anda nos poucos espaços. Sobressai-me o vazio. E desejo que assim permaneça  - aberto, livre, intangível. Aqui eu me salvo, me encaixo e me lacro. Anseio por mim e por outros - mais por mim. Egoísta, fingida, ou instinto de sobrevivência?

Se quiser, posso te ouvir e te ver, ainda que eu seja só uma imagem. Eu não sei como você pode me ver assim.

Façamos um pacto ontem, somente uma vez. Somente assim ele existe. 

Para nada valer.